A Academia Catalana de Letras recorda que, muito antes do governo brasileiro inaugurar o Proálcool em 1975, Catalão já produzia álcool combustível e vendia na região da estrada de ferro. Muito antes de haver incentivos para a produção de açúcar, Catalão já fabricava açúcar cristal em grande escala, sediando uma das indústrias mais modernas do setor: a Usina Martins.
Tudo começou na segunda metade da década de 1920, quando Cassiano Martins Teixeira experimentou, com sucesso, a utilização de álcool como substituto da gasolina em seu caminhão. O veículo funcionou muito bem buscando dormentes para a estrada de ferro e transportando rochas de cristais na região de Cristalina. Nem houve necessidade de qualquer alteração no motor do veículo, apenas uma abertura maior no seu sistema de injeção. A partir de 1927, o caminhão, movido a álcool de cana, empreendeu mais de uma centena de viagens sem apresentação de graves defeitos.
Cassiano Martins, animado com os resultados e influenciado por técnicos paulistas, encomendou uma destilaria de álcool carburante da Alemanha para fabricação do combustível, no valor de 35 contos de réis. O maquinário veio mas ficou embaraçado na alfândega do porto de Santos, de onde só foi liberado com a intervenção pessoal do Ministro da Fazenda.
Contornados os obstáculos iniciais, em outubro de 1931 foi inaugurada a primeira usina de álcool combustível do interior brasileiro. O investimento havia sido caro, mas compensava porque a gasolina era um produto cujo preço oscilava muito, principalmente em localidades mais isoladas do país para onde era transportada em galões. Ainda por cima, em se tratando de mercadoria importada, a gasolina estava sujeita a variações cambiais repentinas em consequência das crises internacionais. Foi o que ocorreu com a crise de 1929 que encareceu o produto no mundo inteiro.
No entanto, a demanda por combustível em Catalão ainda era muito pequena. Os meios de transporte, na época, eram outros. Na metade da década de 1930, por exemplo, o município contava com apenas 8 automóveis, 4 caminhões e 2 motocicletas. O restante da frota era composto por 23 carroças, 12 bicicletas, 17 carroções, 6 charretes e 542 carros de boi. Por isso, Cassiano Martins teve que abrir mercado em toda a região mais próxima para a venda de álcool combustível, chegando a ter representantes comerciais em Pires do Rio, Vianópolis, Bonfim (Silvânia) e Santa Luzia (Luziânia). A usina colocava o álcool em tambores de 200 litros que eram transportados pela ferrovia.
Enquanto isso, os primeiros experimentos oficiais de utilização do álcool combustível ainda engatinhavam no Brasil. Somente em 1933 o Instituto Nacional de Tecnologia, no Rio de Janeiro, desenvolveu com êxito o uso do álcool combustível. Inclusive, o presidente Getúlio Vargas ensaiou uma adaptação em carros oficiais, mas a iniciativa não foi adiante.
Tampouco a iniciativa de Catalão perdurou. Sem quaisquer incentivos ou subsídios, com o preço da gasolina em baixa, a usina do Cassiano Martins entrou no vermelho. O interventor estadual Pedro Ludovico chegou a autorizar, em abril de 1932, um empréstimo subsidiado de 35 contos de réis para a empresa, mas o dinheiro nunca chegou em Catalão. Diante disso, Cassiano Martins, ainda na década de 1930, teve de vender o maquinário da destilaria para um interessado de Ponte Nova em Minas Gerais.
Coube aos filhos do velho pioneiro aprender com o pai e prosseguir no setor. Primeiro, Francisco Cassiano Martins e o irmão montaram outra destilaria para fabricação de uma cachaça largamente vendida na região, a pinga “Catalão”. Alguns anos depois, Francisco Cassiano e outro irmão, Alberto Martins, resolveram comprar o maquinário de uma antiga usina de açúcar, pertencente à família de Antonio Salles, que funcionara nas imediações do Morro de São João. Depois de algumas adequações técnicas, a Usina Martins, a partir de 1947, se tornou a maior produtora de açúcar cristal no coração do país. Começou fabricando 35 sacas/dia até alcançar 150 sacas/dia no período da safra.
A Usina Martins apresentou um modelo industrial bastante avançado para a época. Movimentava inúmeros produtores de cana da região, empregando diretamente em torno de 300 pessoas nas mais diferentes funções do empreendimento. Construiu uma colônia para moradia das famílias de 80 trabalhadores fixos, tendo um grupo escolar em funcionamento nos dois turnos, para mais de 70 alunos, e até mesmo um campo de futebol. Durante muitos anos o caminhão da empresa saía lotado de trabalhadores do antigo bairro das Mangueiras (N.S. de Fátima) e se deslocava até a usina, situada a nove quilômetros de Catalão.
Os planos do “Chico” Cassiano (como era chamado) eram bastante arrojados. Pensava em instalar no terreno da usina um cinema, uma mercearia e uma fábrica de tecidos para confecção de sacos de embalagem para o açúcar.
Entretanto, mesmo com a produção máxima de 50.000 sacas de açúcar cristal por safra, os investimentos em inovações tecnológicas e mecanização ainda eram insuficientes. O faturamento empatava com as despesas anuais, dada a carência de subsídios e de incentivos. Além do que, era grande a oscilação de preços do açúcar no mercado porque havia muita especulação no setor e armazenamento por parte de grandes produtores visando controlar os preços na entressafra.
Em 1972, depois de 25 anos de trabalho contínuo, a Usina Martins parou de funcionar e negociou sua cota e maquinário com interessados de São Paulo.
Três anos depois, o governo federal, enfim, criou um programa de incentivos e subsídios para o setor e transformou o estado de São Paulo em um imenso canavial.
Quando as autoridades federais acordaram para a necessidade de incentivar a produção sucroalcooleira, em 1975, a Usina Martins já havia desarticulado a sua produção. Restou somente na memória o grande esforço dos pioneiros de Catalão. A Usina Martins foi considerada um dos maiores empreendimentos industriais no interior do país. (Luís Estevam)