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Guerra de facções e mortes viram rotina até em cidade pacata de Goiás, a exemplo de Catalão

de Antônio Paulino
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THIAGO AMÂNCIO e AVENER PRADO (FOLHA DE SÃO PAULO)

Casa onde três pessoas foram mortas em julho do ano passado; sobrevivente tirou o telhado do imóvel para pagar dívida de drogas, segundo vizinhos

Casa onde três pessoas foram mortas em julho do ano passado; sobrevivente tirou o telhado do imóvel para pagar dívida de drogas, segundo vizinhos

ENVIADOS ESPECIAIS A CATALÃO (GO)

1) A transferência de um chefe da facção criminosa PCC para a penitenciária federal de Mossoró (RN) agitou detentos e provocou uma rebelião no presídio da cidade que terminou com paredes quebradas e colchões queimados.

2) A filha adolescente de uma conhecida traficante local, assassinada dois anos antes, foi morta por um ex-detento recém saído da prisão com 14 disparos, no rosto, braços, costas e pescoço.

3) Uma usuária de drogas que sobreviveu a uma chacina na própria casa precisou vender o próprio telhado para pagar uma dívida com traficantes do município.

Notícias como essas não chamariam tanta atenção se tivessem ocorrido em alguma grande capital do país. Mas aconteceram em Catalão, município de 102 mil habitantes no sul de Goiás que, embora pequeno, já sofre com problemas de cidades grandes: presença de facções criminosas nacionais e uma escalada da violência.

A 260 km de Goiânia, na divisa com Minas Gerais e cortada pela BR-050 (rodovia que liga Brasília a Santos), Catalão, polo regional do sul do Estado, viu o número de homicídios explodir: saltou 200% em três anos. A Polícia Civil registrou 12 assassinatos por lá, em 2013, e 36, em 2016.

A cidade acompanha tendência nacional a que especialistas em segurança chamam de “interiorização da violência”: a onda de assassinatos tem se deslocado das capitais, tradicionalmente violentas em suas periferias, em direção a municípios menores.

Entre 2013 e 2016, Goiânia viu o número de homicídios cair 26%, de 595 para 438, segundo dados da Secretaria de Segurança Pública de Goiás. Em todo o Estado, a queda foi de 3% no período: de 2.578 homicídios para 2.493.

POLO ECONÔMICO

“De uma hora para outra houve um aumento na oferta de empregos, o que fez com que Catalão ficasse mais atrativa”, explica a socióloga Michele Cunha Franco, professora da UFG, referindo-se a fábricas, como a da Mitsubishi, que se instalaram por lá, além de empresas de mineração, que exploram fosfato.

“Tornou-se um polo econômico, e a cidade não acompanhou esse fluxo migratório com serviços públicos essenciais condizentes, como segurança pública, moradia e educação”, afirma ela sobre a plana e quente cidade do cerrado, onde a agricultura também representa parte importante da economia, com plantações de soja e milho. As caminhonetes rurais são comuns pelas ruas locais.

Em 20 anos, a população catalana saltou de 59 mil para 102 mil habitantes, avanço de 72%, enquanto o país cresceu 30% no mesmo período.

Depois do boom veio a crise. “As pessoas vêm para cá, perdem o emprego e começam a roubar”, diz o promotor Fernando Gomes Rosa. Os registros de roubos na cidade cresceram 269% entre 2013 e 2016, mostram dados do governo goiano.

Além de tudo isso, há cerca de cinco anos, segundo o promotor, o PCC se instalou na prisão da cidade. “Nós tivemos que dividir as alas do presídio por facções. Eles não podem nem andar juntos na viatura, que se engalfinham e se matam. Olha o estado animalesco”, diz ele.

Com a chegada da facção, o tráfico de drogas se especializou, estimulado pela BR-050, que liga o centro do país a São Paulo, Estado origem do PCC. “Nós tínhamos tráfico, que tem em todo lugar, mas começou a se profissionalizar”, diz, citando o crack como o principal problema.

“A cidade cresceu, o crime se especializou, e a polícia reduziu o efetivo”, resume o promotor, que diz que, em 10 anos, a Polícia Militar na cidade perdeu 100 de seus 250 agentes –o governo não confirma esses números.

As brigas entre quadrilhas chegaram às ruas, explica o delegado Jean Carlos Arruda. “Formaram-se gangues de bairros rivais, disputando o tráfico de drogas. Hoje, quem não morreu está preso”.

O tráfico, no entanto, não é suficiente para explicar a explosão da violência, segundo Michele Cunha Franco.

“É inegável que o tráfico tenha uma violência própria. Mas é verdade também que, se você tem uma juventude sem supervisão, sem acesso a valores que os fazem resolver conflitos em termos sem violência, muitos conflitos banais terminam em morte”, afirma a socióloga.

Mata-se, além de tudo, por pouco. No final de novembro, o adolescente Roniclei Freitas de Goes, 16, foi morto a facadas ao tirar satisfação com um vizinho que quase teria provocado um acidente de moto. “Olha para você ver o nível de banalidade”, diz o promotor.

A fim de comparação, Araguari, vizinha de Catalão do lado mineiro da divisa, com 117 mil habitantes e também cortada pela mesma BR-050, registrou 15 vítimas de homicídio em 2016, segundo dados da secretaria de Defesa Social de Minas Gerais.

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